Após meses de ameaças e expectativas, o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deflagrou ontem o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Ela reagiu imediatamente e mostrou que vai deixar a diplomacia de lado. Em pronunciamento oficial, ainda na noite passada, a petista atacou o deputado. Em defesa de seu mandato, a presidente atacou o deputado: “Não possuo conta no exterior, nem ocultei do conhecimento público a existência de bens pessoais. Nunca coagi, ou tentei coagir instituições ou pessoas na busca de satisfazer meus interesses”, revidou.

 

 

Com cenários político e econômico desfavoráveis, Dilma precisa conquistar uma base fiel para resistir às pressões que estão por vir. O processo de deposição só pode seguir adiante se houver 342 votos (de 513) favoráveis no plenário da Casa. Dilma precisa de uma minoria de 171 votos. Dentre os principais elementos que podem ditar o futuro dela na presidência estão a possível pressão popular, a situação econômica e, principalmente, uma forte negociação com os parlamentares.

 

Embora as sucessivas derrotas enfrentadas pelo Governo neste ano sinalizem falta de apoio no Legislativo, exatamente ontem ela experimentou uma vitória importante no Congresso. A aprovação da PLN 5, que revê a meta fiscal, facilitando a administração das contas deste ano. “Não menospreze este fato que aconteceu hoje (ontem), num dia como esse, com tanta tensão aqui dentro, nós aprovarmos esse PLN e derrotarmos os dois destaques. Não é pouca coisa”, argumenta o líder do Governo na Câmara, deputado federal José Guimarães. Ele promete se esforçar para negociar, “com paciência e humildade” o apoio necessário para barrar o impeachment.

 

O cientista político da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer destaca o peso da insatisfação popular nesse processo. Segundo ele, a popularidade do Governo deve cair por conta da retração dos investidores e demais problemas socioeconômicos. A expectativa é de que haja manifestações de rua, a favor do processo e contra ele. Os impactos que os movimentos terão no parlamento serão contabilizados em votos.

 

Contra Dilma, pesam ainda fatores imprevisíveis como os desdobramentos da operação Lava Jato, que traz novas surpresas a cada semana. As delações do senador petista Delcídio do Amaral, preso na semana passada, e do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, podem ter implicâncias sérias na política, lembra Fleischer.